Conversas com meu pai: reflexão sobre o material bruto - Janaina Leite




Concepção, direção e interpretação: Janaina Leite
Direção e dramaturgia: Alexandre Dal Farra
Vídeos: Bruno Jorge




EmConversas com meu paio ponto de partida é uma velha caixa de sapatos que guarda uma infinidade de papéis, bilhetes, guardanapos. Todos trazem frases avulsas, palavras, fragmentos deconversasmantidas em algum lugar no tempo e no espaço por um homem que perdeu a capacidade da fala. A artista Janaina Leite passou a recolher, ainda sem saber para que fim, essas frases soltas, rascunhadas e depois largadas aqui e ali pelo seu pai que 7 anos sofreu uma traqueostomia e, desde então, ficou privado da capacidade da fala.
Em 2008, essas frases, tiradas de seu contexto, acumuladas aleatoriamente, pareceram sugerir um ponto de partida para a criação de uma dramaturgia que, como a memória, colocasse o registro do vivido à mercê da complexa relação entre presente e passado, experiência e registro, viver econtar.
Mais de 500 páginas de escritos e 60 horas de vídeos e áudios compõem a memória de uma espécie de performance de longa duração que teve seu término em outubro de 2011 quando Alair, o pai de Janaina, veio a falecer.


A cena como work in process
O pressuposto para a construção dramatúrgica está contido no nome do projetoreflexão sobre o material bruto, umacitaçãoexplícita do filme Santiago de João Moreira Salles. No filme, o diretor revisita as imagens de um filme abortado 10 anos antes e mergulha em suas memórias e na própria tentativa e fracasso em se fazer o filme.
Em “Conversas”, aos resíduos de uma história real entre pai e filha, somam-se os materiais produzidos nestes 6 anos: entrevistas, diários, ficções. Diversos temas se sobressaíram como a separação, o incesto, o silêncio, o isolamento, a morte, gerando tentativas formais que foram, uma a uma, descartadas.
A atriz Janaina Leite, neste solo documental, apresenta os elementos documentais e ficcionais que surgiram ao longo da pesquisa. Uma espécie de cenário-instalação acomoda os resíduos de uma experiência que se prolonga por anos. Os vídeos, os papéis – infinitos esboços -, os objetos – plantas,  uma vitrola, uma piscina de plástico, um antigo quadro desproporcionalmente grande –, “entulham” o espaço remetendo ao “excesso” de um processo que se recusa a encontrar um sentido único, e opta então por preservar seus elementos na forma “bruta”. Fragmentos do material em vídeo captados durante estes anos pelo cineasta Bruno Jorge são projetados aleatoriamente revelando que ali talvez exista em latência um filme, possivelmente vários filmes, mas em realidade nenhum. No material bruto revelado em cena vemos então as várias obras que dali poderiam ter surgido, mas na própria afirmação da hesitação, da errância e do fracasso mesmo, o que se aponta, ao fim de tudo e contraditoriamente, é que, talvez, o processo seja a única obra.

*Este projeto foi contemplado, em 2012, pelo Proac para pesquisa em artes cênicas e pelo Proac para criação literária e, em 2013, pelo edital de audiovisual da secretaria de cultura de São Paulo para o desenvolvimento do roteiro de longa-metragem.



Sobre Janaína Leite
Janaina é atriz e uma das fundadoras do premiado Grupo XIX de Teatro, companhia existente desde 2001 que participou dos principais festivais do país e de inúmeros no exterior em países tais quais França, Portugal, Cabo Verde, Inglaterra e Itália. Com o grupo, responde pelas criações de Hysteria (APCA, NASCENTE), Hygiene (Bravo, SHELL), Arrufos (SHELL, APCA) e Marcha para Zenturo, esta última em parceria com o Grupo Espanca de BH. Atualmente, dirige e atua no espetáculo da companhia a partir da obra “Vestido de Noiva” de Nelson Rodrigues. O espetáculo, criado com apoio da Lei de fomento ao Teatro, foi também contemplado com o premio Myriam Muniz de circulação nacional. Como atriz, integrou a  montagem deAnjo Negro+A missãodirigida pelo alemão Frank Castorf e o espetáculo “Petróleo” de Alexandre Dal Farra, contemplado pelo Proac 2011 para espetáculos inéditos. Também ministra desde 2006 o núcleo de pesquisaO ator dramaturgo, outra vertente de trabalho do Grupo XIX  que foi contemplada pelo prêmio Myrian Muniz , pelo programa de residências artísticas da Oficina Cultural Oswald de Andrade, o patrocínio do programa Petrobrás Cultural e, agora, pela Lei de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo. Dirigiu o espetáculo "Pronto para mudar" contemplado pelo Proac 2010 que cumpriu temporada no CCSP. Concebeu o espetáculo "Festa de Separação: um documentário cênico", que cumpriu temporada de 8 meses em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Salvador e Belo Horizonte, além de 23 cidades do interior de São Paulo dentro do projeto Viagem Teatral do SESI e do Circula SP, iniciando a pesquisa sobre Teatro Documentário. Dando continuidade a esta pesquisa, Janaina orientou em 2011 o NúcleoPossibilidades para uma cena documentale diversas oficinas intensivas (Centro Cultural Barco, Fundação das Artes, Sesc Copacabana, Festival Porto Alegre em Cena, sede do grupo Espanca!-BH, Núcleo experimental do SESI). Em 2012, foi contemplada com o Proac Pesquisa em Artes cênicas para o desenvolvimento do projeto teórico-práticoConversas com meu pai: reflexão sobre o material brutoe com o Proac Criação Literária para o desenvolvimento  de livro-documentário sobre o mesmo projeto. Em 2013, “Conversas com meu pai” foi contemplado pelo edital de audiovisual da secretaria de cultura de São Paulo para o desenvolvimento do roteiro de longa-metragem. Atualmente, orienta o “Núcleo de projetos em andamento” do Grupo XIX de Teatro.