O que se mostra
Uma mostra de trabalhos em processo apresenta algumas delicadezas pois que nenhum dos trabalhos se pretende ainda um resultado acabado. O que mostrar então? O esboço do que talvez venha a ser um espetáculo? Materiais desconexos que apontam para possibilidades que permanecem ainda em aberto? Uma experiência pontual se aproveitando da chegada do público numa trajetória que até então se manteve restrita a poucos? Uma possibilidade de todo, um exercício de partes?
O que mostrar, tratando-se de trabalhos em processo, é uma escolha delicada da parte do artista e exige uma disposição particular da parte do público. Não se trata da fruição de um objeto que encontrou sua forma, mas de algo que ainda está em movimento.
Durante o segundo semestre de 2013, estivemos juntos no “Núcleo de Projetos em Andamento”, abrindo nossos materiais, esboçando formas, traçando rotas em meio a desejos, ideias, inquietações. Um espaço de interlocução e troca se criou. Mas não só. Os apontamentos, as críticas, as confirmações, tudo isso foi muito importante, mas mais do que isso, uma espécie de rede invisível terminou por se criar amparando os saltos de cada um.
Algumas das tônicas dos trabalhos foram os materiais (auto)biográficos, a ênfase sobre os processos, mais do que sobre os resultados, e o trabalho sobre arquivos. E nessa zona turbulenta que tensiona arte e vida, nos deparamos com mais riscos. A confiança foi fundamental.
É importante agora, ao mostrar, estendermos o pacto ao público e assegurarmos o caráter processual desse evento.
O convite é esse mesmo: perceber o movimento, atentar para o gesto, acolher o inacabado.
Seguimos em processo.
Janaina Leite (integrante do grupo XIX de teatro e orientadora do “Núcleo de projetos em andamento”)
Janeiro de 2014
